Em 6 de abril de 1995, ocorreu em Israel um dos casos de "assassinato" mais famosos, que ocuparia os tribunais, os acadêmicos e o legislativo durante as décadas seguintes: a Suprema Corte proferiu o veredito no caso Apropim, assassinando assim, dizem alguns, a segurança jurídica contratual em Israel. Mesmo quando o poder legislativo alterou a lei, a Suprema Corte não a reconheceu. No entanto, em 20 de novembro de 2019, foi proferida a sentença no caso Bibi Roads e a terra voltou a tremer: Apropim morreu, viva a segurança jurídica! Mas uma decisão da Presidente da Suprema Corte, em abril de 2020, sustenta que nada mudou. Ou não...
Quando duas partes redigem um contrato entre si, nem sempre sabem como ele será lido, às vezes anos depois, por um tribunal. Até o caso Apropim, segundo o Common Law vigente há séculos e conforme expressamente estabelecido na legislação israelense, se a linguagem do contrato é clara, o tribunal o interpreta sem revisar provas extrínsecas. Porém, em uma certa disputa imobiliária dos anos 90, a Suprema Corte sustentou que um contrato deve ser lido sempre de acordo com suas circunstâncias externas. Isso significa que o tribunal interpreta um contrato de um modo que nenhuma das partes pretendia, permitindo ao tribunal decidir primeiro o resultado que deseja e só então interpretar o contrato em conformidade. E se aplicarmos isso à famosa lenda popular suíça: primeiro o tribunal atira a flecha e só depois decide onde a criança segurava a maçã, mesmo que no processo a criança às vezes acabe ferida...
O sentido da jurisprudência Apropim é um golpe mortal na segurança jurídica contratual e essa é a razão pela qual suscitou muitas críticas ao longo dos anos. O legislador israelense também tomou medidas acertadas e, em 2011, a Lei de Contratos de Israel foi alterada, de modo que agora estabelece explicitamente que, quando o contrato é claro, ele deve ser interpretado de acordo com sua linguagem. O propósito claro do legislador, como consta em todas as partes possíveis, era abolir a jurisprudência Apropim e reavivar a segurança jurídica contratual em Israel. Contudo, pouco depois da entrada em vigor da lei, foram proferidas sentenças afirmando que o legislador não tinha realmente a intenção de abolir Apropim e que, na prática, para decidir se o contrato é claro, deve-se examinar primeiro as circunstâncias externas do contrato. Em outras palavras, nada mudou...
Muito "suco de maçã" correu por baixo da ponte durante quase 10 anos, até que, no final de 2019, foi resolvido o caso Bibi, relativo à interpretação de um contrato longo, celebrado como resultado de uma licitação (concorrência pública) antes da alteração da Lei de Contratos. Um dos juízes, o Professor Alex Stein, sustentou que "Apropim se aplica a todos os contratos, mas nem todos os contratos nascem iguais." Os contratos de longa duração requerem uma interpretação mais profunda conforme princípios gerais como a boa-fé, a equidade e a razoabilidade, mas os contratos cujos termos estejam definidos serão lidos conforme sua linguagem. Embora o juiz Uzi Vogelman tenha concordado com o resultado, baseou sua recusa em intervir no fato de que o contrato era o resultado de uma licitação pública. O terceiro juiz, Dr. Ofer Grosskopf, estabeleceu três níveis de interpretação: não intervenção em um contrato comercial no qual todas as partes estavam legalmente representadas; intervenção menor em um contrato privado; e intervenção profunda em um contrato de consumo entre um comerciante e um particular.
Foi solicitada à Suprema Corte uma audiência adicional por se tratar de uma jurisprudência inovadora, mas a presidente Esther Hayut decidiu que nada havia mudado e que, de fato, a decisão seguia o caminho de Apropim, segundo a qual o tribunal deve fazer todo o possível para evitar injetar em um contrato coisas que as partes não pretendiam. Assim, "a linguagem do contrato desempenha um papel fundamental e importante no processo interpretativo" e "presume-se que a interpretação do contrato é coerente com o significado simples e natural do texto". Em outras palavras, o veredito revolucionário de Bibi não mudou nada porque Apropim nunca disse o que todo mundo, durante os últimos 25 anos, acreditou que dizia...
Então, o que mudou? Sem dúvida, a segurança jurídica reforçou, e muito, a necessidade imperiosa de recorrer a advogados para redigir acordos comerciais, mas muito mais, a importância de recorrer a bons advogados com experiência na matéria. Por outro lado, a sabedoria ancestral afirma que tentar economizar dinheiro no final custa muito mais caro, então aqui também não há realmente nada de novo...
